domingo, 10 de maio de 2009

O horror do best-seller

(minha homenagem àqueles que odeiam os best-sellers)
*
Quando cheguei à velha casa, havia já bastantes familiares, amigos e curiosos (gente de cidade pequena aparece para fazer número em qualquer situação com uma naturalidade surpreendente). Eu nunca soube como reagir nessas horas, o que dizer para não soar insensível ou demasiado negativa num momento tão delicado. A porta estava aberta o que, pela quantidade de carros estacionados diante do jardim, facilitaria a entrada das pessoas e, no meu caso, a saída também. Planejara bem o que fazer: entrar, procurar os pais de Rita, dar-lhes as condolências, cumprimentar outros rostos conhecidos e sair sem atrair muita atenção.
A senhora vestida de preto amparava-se no esposo, igualmente magro e pálido. Em torno da pobre mulher, mãe acima de tudo, algumas senhoras murmuravam, desafinadas como filhotes de gatos, preces e lembranças que só faziam aumentar a comoção. Ao me ver, Dona Adelaide abriu os braços, transtornando-se numa careta sentida à qual se misturou o choro da desolação.

- Ah, Leninha, Leninha, tão amiga da minha Ritinha....

Depois de um abraço demorado e quase constrangedor, separamo-nos para que Dona Adelaide fosse acomodada numa poltrona e retomasse o ar. Ainda assim não largava minhas mãos. Mantinha-as bem presas, como se temesse perder-me.

- Você continua escrevendo, minha filha?
- É, de vez em quando Dona Adelaide, fazer o quê?
- Ai, filha, é tão perigoso isso...- e já mais conformada, aninhou meus dedos entre suas mãos em concha e prosseguiu baixinho - viu só o que aconteceu com minha Rita?
Sentindo-me aprisionada como quem tem deveres a cumprir, apenas assenti e continuei ouvindo.
- Ela também escrevia só de vez em quando, sabe Leninha, mas... daí... mandou o tal original para um editor! Maldita hora, meu Deus, que a Ritinha fez isso, ah se a gente soubesse no que ia dar!
Mais lencinhos, mais palavras de consolo e, após uns goles de água com açúcar, continuou:
- Ela achava que o texto era tão bom, coitada. Só que não era bom, era ...vendável! Ai, Leninha, dói no coração de mãe só de lembrar, era vendável, comercial, você acredita? E daí para ocupar lugar de destaque nas livrarias, nas listas de mais vendidos da Veja, nos programas da tevê e nos jornais foi só um pulinho. Quem diria, Deus, quem diria que uma filha minha, que tragédia! Ai, minha Ritinha!

Como o enternecimento desta vez foi incontrolável, aproveitei a movimentação geral de auxílio a Dona Adelaide e me afastei delicadamente daquela cena lamentável . Eu estava sinceramente perturbada. Imaginava minha amiga de infância e tudo o que lhe acontecera.

- É difícil encarar isso...
O senhor a meu lado falara como quem pensa sozinho em voz alta, mas compartilhei de seu pensamento.
- Foi um choque, mesmo... Será que eles vão superar?
- Sei não. Essas coisas não passam de uma hora para outra. Imagine, ter uma filha cheia de sonhos de escritora, de fazer literatura de qualidade, virando de repente um best-seller, vendendo milhões. Não é fácil, não. A Rita nem apareceu hoje de tanta vergonha, nem para se explicar aos pais. Coitada da menina... Onde já se viu, vender livros igual água, cair na boca do povo, no gosto do povo, e o pior!
- Tem mais?- perguntei incrédula
Ele se aproximou de mim como quem confidencia.
- Dizem que o livro dela vai virar filme, e de americano!
- Que horror! A grande massa! Hollywood! Deus tenha piedade da Ritinha...
- Tem salvação, sabe?
- O senhor acha?
- Ah, eu rezo... Quem sabe com o tempo ela escreve um livro bom de crítica, vende só meia dúzia para os intelectuais, e alcança o ostracismo. Se tiver esperança pode até morrer pobre, mas com dignidade de escritor de talento!
- É... quem sabe...
*

2 comentários:

Laura Fuentes disse...

Olguinha, que virada e que texto bem escrito! Simplesmente adorei a ironia.

Angélica Lins disse...

Parabéns!!!
Gostei demais.

Estive aqui. :)