sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A fantástica terra de Akureyri

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Aproximemo-nos agora da região norte da Terra do Gelo. Sim, faz frio, mas esta é a época mais quente para visitá-la, não que isso faça qualquer diferença para um V.V..



Encontrei um lugar na Islândia do qual nunca ouvira falar. Eu, claro, porque o local é um forte ponto turístico, com museus, diversas atividades de entretenimento, shopping, um porto e um aeroporto e até universidade! Hoje iremos para Akureyri, nada menos que a 3ª ou 4ª maior cidade da ilha (há divergências!).

Curiosidade: no verão, o sol se mantém no céu por 21 horas, o que nos permite aproveitar ao máximo este paraíso de paisagens diversas. No inverno, tremam! O sol aparece por apenas 3 horinhas, Brrrrr!


Akureyri começou com uma dúzia de comerciantes dinamarqueses, que a usavam como ponto de estocagem de produtos. Foi mencionada pela primeira vez numa sentença dada a uma mulher que se deitou com um homem com quem não era casada. Que escândalo! Bem, ao menos em 1562! Hoje tudo está bem diferente! São mais de 17 mil habitantes e nossa viagem começa sobrevoando a paisagem delirante.



Desta vez hospedamo-nos no Akurinn Guesthouse, bem no centro da cidade e com uma atmosfera simples, mas acolhedora.



Temos muito a fazer! Que tal começarmos? Primeiramente vamos visitar o que a cidade tem a oferecer de roteiros culturais. Principiemos pelos museus e antigas construções. Mais ao sul, mergulhamos na história da cidade, em construções que datam de 1827, como o hospital e a igreja. Passemos também pelo Jardim de Natal, aberto todo o ano.




Ah, e para encerrarmos o dia, que tal irmos de compras? Parece que a decoração natalina é um dos fortes da Terra do Gelo. Portanto, traremos de lá o mais perfeito floco de neve para decorar nosso próximo Natal. Podemos trazer também um Yule Lad, o correspondente de Papai Noel islandês. Segundo um poema folclórico, eles (sim, são vários) aparecem 13 dias antes do Natal. Curiosamente, a maioria deles é de ladrões e travessos, que roubam metais, velas e comidas, ou, como o malandrinho logo abaixo, que bate à porta à noite para nos acordar, o Hurðaskellir.




Para o jantar, uma visita ao Rub 23- restaurante de comida japonesa! De primeiro prato, tempurá de salmão com molho unagi e salada de pepinos e erva-doce. Como segundo prato, um seleção de frutos do mar e pratos de acompanhamento especialmente preparados pelo chef. De sobremesa, chocolate, servido de três diferentes formas: quente, frio e gelado. Que tortura! E que ambiente!




Bastante satisfatório para um dia, amanhã está reservado para as aventuras!


Bom dia! Há tanto por fazer. Aqui podemos escolher entre: golf, andar de bicicleta, observar aves em diversos locais de vista extraordinária, excursões em barco ou ônibus, caminhada. Podemos andar a cavalo, executar um voo panorâmico, passear com um dos amáveis guias turísticos pela adorável cidade, ou pela incrível floresta de Kjarnaskógur.







Ufa! Restando fôlego, vale a pena subirmos pela montanha de Súlur. Assim nos despedimos daqui, com a vista majestosa da natureza selvagem.
 
 



Ah, quando quisermos matar a saudade, há como ver Akureyri ao vivo. Há pouco estava chovendo, podia-se ver através da câmera. Se a saudade o levar à típica música folk (com algumas letras datadas do século XIV, contando sobre elfos e trolls), aqui vai um exemplo alegre, que, apesar da letra para acompanhamento, segue intraduzível para meus destreinados ouvidos latinos:






Fotos
fig. 1- Google Earth- 65º41'01.83"N/ 18º06'22.47O
fig. 2- http://www.port.is/index.php?pid=6&imgid=5
fig. 3- http://akurinn.is/index.php?option=com_content&task=view&id=4&Itemid=11
fig. 4- http://www.port.is/index.php?pid=6&imgid=9
Yule Lad- http://shop.travelnet.is/yule_lad_door_slammer_1067_prd1.htm
Floresta- http://farm1.static.flickr.com/150/386870569_304299cbb1.jpg?v=0
Montanha de Sulur- http://gallery.vma.is/bensi/Sulur/P8190078_001.JPG.html
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sonho de mãe

(texto importado de meu antigo e muito abandonado blog)

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Larguei meu filho sozinho no quarto de uma casa que ele não conhece bem. Já se fazia tarde, quando apaguei a luz e o fechei ali.

Mas não consigo dormir pensando nele... O que estaria fazendo agora, esse menino que não me deixa? Teria ele adormecido, tão cansado estava de me esperar? Choraria talvez, assustado com a possibilidade de que eu não voltasse mais?

- Nunca fui mãe de verdade,mas cuido de um menino-personagem ao qual dei vida no romance que hoje escrevo.

Não tema nada, lhe digo baixinho. Não tenha medo, pequenino carinho, invenção minha. Deixarei o caderno aberto e todas as saídas desempedidas, porque só um amor de mãe pode ser enorme assim.

E quem sabe eu me veja acordada e descubra não ser mais nada, além de um simples conto, que meu filho está sonhando enquanto dome em minha história.




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Imagem: Boy in Tuba: allposters.com

domingo, 19 de julho de 2009

Carta à pessoinha que fui...

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À pessoinha que eu fui...

Menina, que barra pesada essa de ser tão tímida! Você tinha toda a pinta de CDF, sabia? Cabelos lisinhos, amarrados em marias-chiquinhas, olhos puxados de oriental, voz calma e baixa, e total atenção nos professores diante de você! Vez ou outra você ouvia suas amigas conversando nas outras carteiras, mas nem escutava o que elas diziam, porque havia uma autoridade na sala de aula, e seria uma enorme vergonha se chamassem sua atenção pela conversa.

E no recreio, a hora da merenda! Você nunca furava a fila como a maioria dos meninos do colégio. E por isso mesmo, às vezes, ficava sem merenda. Você adorava o macarrão, lembra? E morria de raiva quando alguém deixava a comida caída nos bancos de cimento, ou no chão do pátio enorme do João Kopke, em São Paulo. E o leite de soja com bolachas de água-e-sal! Era delicioso! Curioso como as filas nunca terminavam nesses dias de merenda saborosa.

Ah, sua pateta, você se lembra de como chegou ao colégio? Chorava o tempo todo. Sua mãe só ia embora quando você era deixada aos cuidados da professora Teresinha, do pré-primário, sua primeira professora! Depois, sempre que a professora saía da sala, você ia atrás dela! Foi bem estranha aquela vez em que ela abriu a porta do banheiro e deu de cara com você, ali, quietinha, estendendo a mão para não mais ser deixada para trás naquela sala de aula cheia de adultos pequenininhos e completamente malucos! É... você tinha medo das outras crianças, porque elas se comportavam ...como crianças! Mas não você! Você já nasceu velha, quase cismada, eu diria nos olhando a distância...

E os meninos, recorda-se deles? Um tal Marcelo roubou um beijo seu, na escada, quando estavam de saída. Foi no rosto, bem inocente, mas você ficou vermelha como um pimentão! E tinha aquele, o Rildo, sim esse era o nome dele! Ele nunca roubou um beijo seu, embora você nem se importasse tanto se isso acontecesse. Certa vez, porém, ele disse algo sobre as mulheres serem inferiores, principalmente no vôlei, o jogo que vocês disputavam aquela manhã. Na defesa de todas, você lhe deu um tapa na cara! Maneira tímida de dizer que ele era importante... Ele revidou, "deu, levou", disse. Depois veio pedir desculpas, pelo tapa, mantinha o que dissera das mulheres!
Mas era tarde, algo dentro de você estava quebrado...

Aos poucos você fez amizades, a Silvana, quase uma irmã; a Vera, a mais bonita do grupo; a Edésia, a mais bem-humorada de todas... Mas o primeiro grau terminou, e você mudou de colégio... Agora era adolescente! Mais tarde escreverei à adolescente que você foi. Por enquanto, menininha cujo quarto não tem janelas, continue guardando dinheiro no fundo de seu armário. Se alguém vier e quiser levá-la para muito longe, você terá como voltar para casa...


Assinado,
Você Mesma, num futuro onde tudo fez sentido!
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

VV no Smithsonian Museum


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Descobri hoje que no site do Smithsonian National Museum of Natural History é possível empreender uma visita virtual em 3D. Basta clicar sobre a tela do elefante, no site, à esquerda. Excelente pedida para o Viajante Virtual (VV).


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Além de objetos de antigas civilizações, fósseis e reproduções de dinossauros, plantas, mamíferos e insetos, minerais e pedras preciosas, você pode conferir rochas espaciais. Tem mais: é tudo tão bem fotografado, que a gente realmente se distrai diante da tela, perdido no Tempo do Mundo e de nossa própria história. Ah, é possível acompanhar detalhes do acervo, através de ícones estratagicamente localizados.

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Recomendo especialmente os dinossauros, a baleia no Ocean Hall, os minerais belissimamente coloridos e, claro, a visão do estonteante Diamente Hope- o diamante azul amaldiçoado- que tem um espaço de destaque no segundo andar. Sugiro a Comprehensive Virtual Tour. Repare na bela praça central, a "Rotunda", no primeiro andar, e aproveite a visão 360º de todos os ambientes. Através do mapa no canto superior direito e com a janela diminuída, você escolhe o andar, ou sala a visitar, depois aumenta a tela através dos ícones no rodapé e se deleita com o museu. O mapa também indica os espaços que já foram visitados e os que ainda não se explorou. É de tirar o fôlego! Nota 10 para o projeto do Museu.

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foto:prometheus.med.utah.edu

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terça-feira, 14 de julho de 2009

Viajante Virtual


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Sem dinheiro para viajar? Medo de avião, ataques terroristas, terremotos e outros desastres naturais; diferenças idiomáticas intransponíveis, dificuldade em lidar com a distância de familiares e amigos? Seus problemas acabaram!
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Esta série de posts, Viajante Virtual, que inauguro em meu blog, tem presunção de nos levar aos lugares mais longínquos sem que seja necessário nos mover do conforto de nossa casa. A cada viagem, exploraremos as particularidades, as curiosidades dos locais visitados, sem os limites físicos de um tour real, mas com a mesma finalidade: conhecer os lugares e seus costumes, sua gente, sua música, comida, festas, etc.* Preparado? Então sigamos...

Nossa primeira parada será...

Provença- França. A Provença, para começar, é o nome dado a uma região inteira, que se estende da margem esquerda do rio Ródano até a margem esquerda do rio Var, que limita o condado de Nice.

Neste primeiro dia, estaremos em Saint-Julien-Du-Verdon. Em 2006, o local tinha 17 habitantes por Km². Para que tenhamos uma noção, a cidade de São Paulo tem aproximadamente 7.216 habitantes por Km², segundo a Wikipedia.

Embora pareça próxima do fim do mundo em termos de contatos sociais, a região é bastante turística e guarda paisagens maravilhosas. Antes, porém, saibamos exatamente onde estamos.
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Às margens do Lago Castillon, vista do Google Earth. 43º54'51.80"N/ 6º32'25.14"L

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Saint-Julien-du-Verdon fica a 60 minutos do aeroporto de Nice, a 10 minutos (8 km) das lojas de Saint Andre Les Alpes. Todo circundado de pinheiros e carvalhos, trata-se de um lugar ensolarado e verdejante, às margens do lago Castillon, a 900m acima do nível do mar.


Chegando à Saint Julien! Deixemos que as imagens falem por si mesmas. Eis o que nos recepciona:



Hospedaremo-nos no Le Chalet de L’Imaginaire, acomodação 5 estrelas, cuja localização nos convence de imediato:



Que horror a cor dessa água! Como bônus, talvez devamos fazer algumas massagens relaxantes, de vista para o Lago, claro. Sessões de reflexologia são oferecidas aos hóspedes!

Ah, mimo: as massagens são feitas com óleo de lavanda natural, colhida ali mesmo na região dos Alpes! Não é o máximo?


Agora, bem relaxados, podemos ir em busca de alimentação. Que tal na cidade vizinha de Saint Andre? Na Rue de Monges, há um restaurante, o L'Olivier, elogiado por turistas por sua cozinha francesa saborosa e preço bastante coerente.


De volta a Saint Julien, ainda há tempo de conhecermos a Capella de Notre Dame do séc. XVII, porque é verão e a noite tarda a chegar.


A propósito, Notre-Dame significa Nossa Senhora, e há dezenas de Notre Dames espalhadas pela França. A mais famosa, no entanto, fica em Paris, foi construída em estilo gótico, e teria inspirado Victor Hugo a criar O Corcunda de Notre-Dame. Uma olhadela em uma das fachadas deixa-nos imaginar a grandiosidade da obra. Percebem as gárgulas? Incríveis!



Mas... estamos no campo, longe da civilização. Planos para amanhã: diversão e compras! Não exatamente nessa ordem.

Nem bem o sol raiou e deixou o Lac de Castillon ainda mais azul, descobrimos que nas cercanias fica a maravilhosa loja de produtos para banho e perfumes Mad et Len. O nome vem de Madeleine, e é uma referência a obra de Proust, Em Busca do Tempo Perdido. Tudo na loja é feito a mão e com bastante cuidado pelo dono e sua esposa.

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Trés Chic: comprar velas de gardênia e patchouli oriental e queimá-las ao mesmo tempo para um aroma inigualável! Uau! Perfumaremos nosso quarto esta noite no chalet!





Durante o dia, aproveitaremos as atividades náuticas oferecidas pelas redondezas, como canoagem e rafting. Depois almoçaremos no próprio restaurante do chalé, enquanto nos deleitamos com a vista do Castillon, que possui uma superfície de 5 Km² . Ah, podemos também andar a cavalo, fazer paragliding, ou jogar tênis.




Se quisermos algo menos radical, uma caminhada pela região nos deixará igualmente de boca aberta com suas casas de pedra e ruas estreitas, que lembram as construções medievais.



À noite, degustaremos a fina cuisine do Chalet e um bom vinho francês. Amanhã partiremos daqui para outro lugar de sonhos...

...por enquanto, sintam a fragrância da gardênia ardendo na varanda, enquanto a brisa do lago sopra seus bons ares noturnos de verão! Esta noite, sonhemos com campos de lavanda...



Foto de Gerald Brimacombe

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The pictures:

fig. 1: Google Earth
fig. 2: http://www.gites-de-france-04.fr/tzr/scripts/resizer.php?filename=T004/img1/ef/78/aa0apx3qaghpif5l2x5eqe71&mime=image%2Fjpeg&geometry=437%3E
fig. 3-http://1.bp.blogspot.com/__7afloJjRwQ/SSJ3pUej_SI/AAAAAAAABu4/9vBf8k9vMRk/s1600-h/St+Julien+du+Verdon+-+Mad+et+Len+-+www.ShopCurious.com.jpg
fig. 4: http://en.lechaletdelimaginaire.com/Home_files/shapeimage_3.png
fig. 5: http://www.rainforthrentals.co.uk/cavaillon_local.html
fig. 6: Google Earth
fig. 7- capela notre damme XVII
fig. 8- http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1c/Notre-Dame-Paris_east_2.jpg
fig. 9- http://www.shopcurious.com/Products/Mad-et-Len/Coffret-of-curiosity-candles-mandarine-and-gingembre.aspx
fig. 10: http://www.terreprovence.com/imageFiles/hebergement/993/pho_4287_pho_photo.jpg
fig. 11: http://www.net-verdon.com/docs/saint-julien/saint-julien-14.JPG
fig. 12: http://www.geraldbrimacombe.com/France/France%20-%20Provence%20-%20Lavender%20wild%207x4.jpg

*Tenha-se em consideração que a viagem é virtualíssima, portanto não simula dificuldades de nenhum tipo, físicas, financeiras, etc. As fontes consultadas, as fotos, e todos os demais dados não são de responsabilidade da autora deste blog, apenas foram pesquisados por sua curiosidade e incentivadas por sua grave fobia de aviões.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Estranha Passageira, Now Voyager

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Como não se apaixonar por Bette Davis, e por uma história cujos diálogos sejam tão sensíveis...


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A segunda melhor parte do filme segue abaixo, para quem quiser conferir, com legendas.







A melhor cena, a última, contém uma das mais belas falas do cinema, na minha modesta opinião... Algo como a cena final de Casablanca; talvez no mesmo patamar da cena em E o Vento Levou quando Scarlett O'Hara jura nunca mais sentir fome , ainda se tiver de matar, mentir, roubar ou trair...

Assim dirá Bette Davis a Paulo Henreid:

- Oh, Jerry, não vamos pedir a Lua. Nós já temos as estrelas...

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Procura-se um poema

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Lembro-me desse livro, capa verde, cabia na palma da mão. Mas o que escondia em suas páginas seria capaz de povoar do mundo inteiro a existência. Infelizmente não tenho mais o livro. Emprestei-o para nunca mais....
Havia poemas diversos, era uma antologia da poesia brasileira, os mais belos poemas, devo dizer. Um deles, As Três Irmãs, de Luis Delfino, é o objeto do meu desejo. Só encontro trechos, na verdade os mesmos, em livros e sites, mas queria ler novamente, na íntegra, a história do amor de um homem por três irmãs. Ele as ama de maneiras diferentes, a uma como filha, a outra como irmã, e à teceira, como mulher. O poema imagina situações que o eu-lírico vivenciaria com todas elas: o casamento e a morte, por exemplo. Abaixo seguem trechos do poema, pescados no mar imenso da web. Caso alguém tenha outros trechos, um verso que seja, peço humildemente que mos indique, pois estou, há muitos anos, à procura de um único poema...

As três irmãs

“Se a segunda casasse, eu mesmo iria a
igreja,
Levá-la pela mão:
Dir-lhe-ia: O céu azul virar-te aos pés
deseja
O meu amor de irmão.
[...]
Se a terceira morresse, em seu caixão
deitada,
Sem que eu chorasse, iria,
Porque noutro caixão, ó minha morta
amada.
Alguém te seguiria...”

Luís Delfino
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Memória em verso...



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John William Waterhouse- The awakening of Adonis
" [...]

Mi leña, mi hogar,
mi techo, mi lar,
mi nobleza.
Mi fuente, mi sed,
mi barco, mi red
y la arena.
Donde te sentí
donde te escribí
mi poema."

Serrat
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“O que aconteceu? A vida, e fiquei velho.”
Louis Aragon (in Um toque na estrela, GROULT, Benoit)

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Mas tudo isso eu vou dizendo
para você ficar sabendo,
compreendendo melhor... enfim...

Veja: estou quase chorando
E nada existe para mim,
Senão o olhar que estou olhando...

Paul Géraldy

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" O homem não se esconde de si mesmo, e o maior infortúnio dos corações covardes é sentirem que o são..." Machado de Assis. in Ressurreição.


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Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada vires, abatida e turva
Tremer a alvura dos cabelos meus,

Irás pensando, pelo teu caminho
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

Guilherme de Almeida


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Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
[...]
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

*

[...]
Assim como o oceano
Só é belo com o luar
Assim, como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor
Não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você.

Vinicius de Moraes

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Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!


Gonçalves Dias

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Mas que tens?
Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
[...]
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
(idem)


*

Choraste?! - E a face mimosa
Perdeu as cores da rosa
E o seio todo tremeu?!
Choraste, pomba adorada?
E a lágrima cristalina
Banhou-te a face divina
E a bela fronte inspirada
Pálida e triste pendeu?!

[...]
Perdão! se fui desvairado
Manchar-te a flor d'inocência
E do meu canto n'ardência
Ferir-te no coração!
- Será enorme o pecado,
Mas tremenda a expiação
Se me deres por sentença
Da tua alma a indiferença,
Do teu lábio a maldição!...
........................
Perdão, senhora!... Perdão!...

Casimiro de Abreu


*


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
- "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo...

Idem

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Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

G. Dias
*



Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
[...]

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Florbela Espanca

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Que habrá después de ti?
más que estas lágrimas
si hasta la lluvia en el jardin
toca música sin fin...
sombria y trágica...
(in Closer, Josh Groban)
*

[...]

Starry starry night, flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds in violet haze reflect in Vincent's eyes of china blue
Colors changing hue, morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain are soothed beneath the artist's loving hand

Now I understand what you tried to say to me
How you suffered for you sanity
How you tried to set them free
They would not listen they did not know how, perhaps they'll listen now

For they could not love you, but still your love was true
And when no hope was left in sight, on that starry starry night
You took your life as lovers often do,
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one as beautiful as you

[...]

Don McLean (para Vincet Van Gogh)

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A montanha através da janela

( segue mais um trecho de Longe através do véu )
***
Liguei a televisão para distrair a gente, mas ninguém acompanhou nada. Então, meu tio piscou demoradamente os olhões de cílios compridos, e tive a sensação de que só ali é que ele me viu. Minha mãe já volta, eu falei apressadamente.

Daí aconteceu uma coisa muito engraçada. O Pepe pulou no colo dele e começou a fazer festa, dando lambidas no rosto do tio. E ele? Ele riu pro Pepe! E eu sorri, pela primeira vez sem o peso da ausência de minha mãe. Acho que ele reparou como ia perdendo o medo dele, porque me chamou pelo nome e me entregou a bolinha do Pepe. O Pepe correu para mim e eu acabei devolvendo a bola para o tio Fernando. Jogamos umas boas vezes, rindo, cada vez mais solto, do desespero do Pepe. Uma hora o Pepe a alcançou, só que, em vez de agarrar, acabou batendo nela com os dentes, e a bola voou pela vidraça, levando meu tio e eu até a janela para vermos aonde tinha ido parar. Caiu no jardim, acho, mas em que lugar? Só que o tio não respondeu. Nem deve ter ouvido minha pergunta, porque estava encarando a montanha, apoiado com as duas mãos no beiral da janela. Jurei que ele tinha visto alguém conhecido ou foi a montanha enorme, não sei, reparei que os olhos dele estavam cheios de água.

Foi muito esquisito quando ele começou a chorar.

Ela já vem... falei, mais para mim que para ele.
***

domingo, 21 de junho de 2009

Longe, através das paredes

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(este é o novo capítulo de Longe, através do véu)
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Capítulo 2- Longe, através das paredes

Ao acordar, o Pepe ouviu barulhos na cozinha e latiu para eu abrir a porta do quarto. Também fui investigar o que era e encontrei mamãe servindo a mesa para o café da manhã. Ela sorriu e me perguntou como tinha dormido. Respondi que bem, enquanto pegava uma torrada quentinha e olhava em volta, procurando pelo maníaco. Será que maníaco e louco eram iguais? O Diego achava que sim, depois de ouvir o pai comentando uma notícia de jornal. É, filho, o mundo está cheio de maníacos, gente louca! Claro, os olhos do Diego brilharam! Ele tinha mais informações sobre meu tio do que eu, sobretudo porque minha mãe nunca me falara dele, só quando precisou ir buscá-lo no hospital de louco. Hospital de louco! Não fale assim, Léo, seu tio pode te ouvir.

Lá estava a estátua da família, sentada no sofá como quem fica no alto de uma montanha, admirando a paisagem. Parecia tão inofensivo, meu doido de cera, que peguei um copo com leite e outra torrada e me sentei na frente dele.

Algumas vezes eu também olhava para trás, só para conferir, pois sentia ele olhando além das paredes de casa, como se houvesse mais, algo que só os loucos conseguem entender. Mamãe ia o quê? Sair? Mas e eu? Fique aqui bonzinho e cuide do seu tio, que eu não demoro. Mas e... se ele der uma de doido? Não houve resposta. Mamãe só me beijou e sorriu de um jeito triste, tanto que meu deu muita pena dela e até do tio, coitado, ele não pediu para estar assim, doente... Doente, isso eu entendia. Também ficava doente algumas vezes e quem fica não gosta de ficar, mas minha mãe cuidava de mim. E ele? Eu teria que cuidar dele? Mãe, volta logo, mãe...
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Longe através do véu

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(Santa audácia a minha, sujeitar minha meia dúzia de leitores a esta experiência, mas aí vai: este texto é um excerto de algo em que venho trabalhando- postarei em capítulos, para quem aguentar segui-lo. O título é provisório.)
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Capítulo 1- Perto demais
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Um dia fomos buscar meu tio para viver com a gente. Mamãe me explicou que ele precisava de nossa ajuda porque ficara deprimido... muito aflito... meio louco. Ao contar aos amigos da escola, começaram a comemorar. Um louco! Você vai ver um louco de verdade!, resmungou o invejoso do Diego. Nunca víramos um louco, e o imaginávamos caminhando sem roupas pelas ruas, falando sozinho, cantando e chorando sem parar. No fundo confesso que fiquei com medo do tio louco. Os olhos dele eram iguais ao espelho do banheiro depois do banho quente, e as mãos, eu lembro, tinham dedos longos de palitos, dobrando e arranhando o vidro dos copos e dos pratos, equilibrando os talheres e deixando alguma comida cair numa garfada e outra. Bem, talvez nem tanto assim... hoje não tenho mais certeza de quais partes daquela semana realmente ocorreram. A sensação é de ter sonhado o que aconteceu comigo naqueles dias e agora estar aqui contando a você um sonho absurdo, com jeito de pesadelo e cara de real.

De qualquer forma, voltando à primeira noite com nosso visitante, sei que encostei uma cadeira na porta do quarto. Ele estava dormindo na sala, perto demais, e eu não sabia do que um louco era capaz, mas o rosto sem riso da mamãe indicou que não devia ser nada bom, nada bom mesmo. O único a dormir feliz aquela noite foi o Pepe, meu vira-latas, porque mamãe não apareceu para tirá-lo de cima da cama como fazia todas as vezes quando pensava que eu já estivesse dormido.
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dois Pesos

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(Acompanhei na mídia)
Um ex-militar octogenário que luta contra o câncer e já gastou com medicamentos as economias de toda uma vida . Uma senhora, também idosa, que mal pode falar devido a complicações respiratórias. Esses são apenas dois exemplos de cidadãos a quem o governo (municipal, estadual ou federal, não me lembro) deve dinheiro (o famoso precatório- uma ordem de pagamento). Ambos foram favorecidos por decisões judiciais e ainda não ressarcidos. Segundo informações de um telejornal, a Fazenda pública deveria liquidar esse tipo de dívida em até 18 meses. Entretanto, com nos dois exemplos acima, há diversos outros na fila de espera que tiveram o prazo de pagamento ultrapassado em vários anos. Pergunto a quem possa responder: quando a Receita Federal, ou qualquer órgão governamental cobra um cidadão comum, o faz com ameaças que incluem multas seriíssimas e prisão. E no caso de representantes públicos e governo caloteiros, quem vai para a cadeia?
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domingo, 10 de maio de 2009

O horror do best-seller

(minha homenagem àqueles que odeiam os best-sellers)
*
Quando cheguei à velha casa, havia já bastantes familiares, amigos e curiosos (gente de cidade pequena aparece para fazer número em qualquer situação com uma naturalidade surpreendente). Eu nunca soube como reagir nessas horas, o que dizer para não soar insensível ou demasiado negativa num momento tão delicado. A porta estava aberta o que, pela quantidade de carros estacionados diante do jardim, facilitaria a entrada das pessoas e, no meu caso, a saída também. Planejara bem o que fazer: entrar, procurar os pais de Rita, dar-lhes as condolências, cumprimentar outros rostos conhecidos e sair sem atrair muita atenção.
A senhora vestida de preto amparava-se no esposo, igualmente magro e pálido. Em torno da pobre mulher, mãe acima de tudo, algumas senhoras murmuravam, desafinadas como filhotes de gatos, preces e lembranças que só faziam aumentar a comoção. Ao me ver, Dona Adelaide abriu os braços, transtornando-se numa careta sentida à qual se misturou o choro da desolação.

- Ah, Leninha, Leninha, tão amiga da minha Ritinha....

Depois de um abraço demorado e quase constrangedor, separamo-nos para que Dona Adelaide fosse acomodada numa poltrona e retomasse o ar. Ainda assim não largava minhas mãos. Mantinha-as bem presas, como se temesse perder-me.

- Você continua escrevendo, minha filha?
- É, de vez em quando Dona Adelaide, fazer o quê?
- Ai, filha, é tão perigoso isso...- e já mais conformada, aninhou meus dedos entre suas mãos em concha e prosseguiu baixinho - viu só o que aconteceu com minha Rita?
Sentindo-me aprisionada como quem tem deveres a cumprir, apenas assenti e continuei ouvindo.
- Ela também escrevia só de vez em quando, sabe Leninha, mas... daí... mandou o tal original para um editor! Maldita hora, meu Deus, que a Ritinha fez isso, ah se a gente soubesse no que ia dar!
Mais lencinhos, mais palavras de consolo e, após uns goles de água com açúcar, continuou:
- Ela achava que o texto era tão bom, coitada. Só que não era bom, era ...vendável! Ai, Leninha, dói no coração de mãe só de lembrar, era vendável, comercial, você acredita? E daí para ocupar lugar de destaque nas livrarias, nas listas de mais vendidos da Veja, nos programas da tevê e nos jornais foi só um pulinho. Quem diria, Deus, quem diria que uma filha minha, que tragédia! Ai, minha Ritinha!

Como o enternecimento desta vez foi incontrolável, aproveitei a movimentação geral de auxílio a Dona Adelaide e me afastei delicadamente daquela cena lamentável . Eu estava sinceramente perturbada. Imaginava minha amiga de infância e tudo o que lhe acontecera.

- É difícil encarar isso...
O senhor a meu lado falara como quem pensa sozinho em voz alta, mas compartilhei de seu pensamento.
- Foi um choque, mesmo... Será que eles vão superar?
- Sei não. Essas coisas não passam de uma hora para outra. Imagine, ter uma filha cheia de sonhos de escritora, de fazer literatura de qualidade, virando de repente um best-seller, vendendo milhões. Não é fácil, não. A Rita nem apareceu hoje de tanta vergonha, nem para se explicar aos pais. Coitada da menina... Onde já se viu, vender livros igual água, cair na boca do povo, no gosto do povo, e o pior!
- Tem mais?- perguntei incrédula
Ele se aproximou de mim como quem confidencia.
- Dizem que o livro dela vai virar filme, e de americano!
- Que horror! A grande massa! Hollywood! Deus tenha piedade da Ritinha...
- Tem salvação, sabe?
- O senhor acha?
- Ah, eu rezo... Quem sabe com o tempo ela escreve um livro bom de crítica, vende só meia dúzia para os intelectuais, e alcança o ostracismo. Se tiver esperança pode até morrer pobre, mas com dignidade de escritor de talento!
- É... quem sabe...
*

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Os tímidos também publicam- o plano de vôo de uma escritora acanhada


Esta é uma obra de muita, muita, muita ficção.
Qualquer semelhança com a vida real terá sido mera coincidência.


Conheça a autora:
- Olga é escritora há apenas alguns meses, embora venha rabiscando coisas ininteligíveis há muito tempo.
- Tem 0 (zero!) livros publicados!
- 0 (zero!) livros concluídos ou engavetados!
- 0 (zero!) ideias para projetos futuros e nenhuma, mas nenhuma mesmo! noção do estilo próprio, embora queira como dizem os espanhóis "estar al plato y a las tajadas"[1]
- Apesar de não ter vocação para pistoleira (em qualquer acepção da palavra), disparou seus tirinhos, todos eles saídos pela culatra, como a participação em um Concurso Cultural, que não ganhou, não previa retorno de nenhum tipo aos participantes e, se querem saber, não valeu nem como experiência, porque até hoje a história criada especialmente para o concurso é motivo de trauma para a autora. Todavia, essa corajosa e sonhadora criatura se dispôs a pensar um "plano de carreira" e para isso contará com sua inabalável fé na sorte, na oportunidade do que cedo madruga e na Fada Azul.

Prólogo
Querido diário, hoje a professora Marisa me disse que tenho de pensar num plano para a decolagem de minha carreira como escritora. Logo eu, diário, que tenho tanto medo de voar... Confesso ter ficado muito feliz ao ver a cara de alguns colegas, igualmente acanhadinhos, imaginando tantos procedimentos de vôo sem nem termos conhecimento do tipo de aeronave ( se asa delta, se jumbo) que conseguiremos pilotar.


Perfil da Comandanta Olga: mulher, muitos anos de vida, voante-autora de primeira viagem.
Destino: ser uma escritora mundialmente famosa e particularmente realizada.


"Atenção, senhores passageiros, sejam bem-vindos. Em caso de percalços, críticas ácidas cairão sobre suas cabeças, respirem normalmente e lembrem-se de que sempre existirão coisas piores que sua humilhação pública e total ruína literária ... Se os senhores tiverem um agente literário, melhor ainda: é sobre a cabeça dele que as coisas vão desabar."


A viagem
Olga acaba de embarcar com 3 maravilhosos livros na bagagem! Nenhum foi escrito por ela, adquiriu-os no aeroporto para se distrair no percurso dirigido pelo piloto automático. [2]

O que ninguém sabe (ou sabia, até agora) é que a comandanta também trouxe consigo um livro de autoria dela, já devidamente registrado na Biblioteca Nacional. Olga tinha um plano... um plano de carreira.

O livro - Com aproximadamente 80 folhas A-4, digitadas em fonte Times New Roman-11, espaço 1,5, o livro terá, quando montado, 150 páginas, para conseguir competir no árduo mercado editorial onde centenas de livros e milhares de escritores são produzidos todos os dias. A história, um drama-fantástico, nasceu para concorrer com títulos da altura de "O Senhor dos Anéis", "As Crônicas de Nárnia", etc.. Infelizmente nem sempre os filhos são aquilo com que sonham os pais...


Plano de vôo

Primeira Conexão: Contatos! A autora escreve regularmente em seu blog, frequenta eventos, oficinas, cursos, lançamentos de livros de literatura fantástica, de ficção e, ultimamente, de auto-ajuda ("O Poder do Pensamento Positivo- Se Lula chegou à presidência, eu chegarei à lista dos mais vendidos da Veja", "O autor no topo- 100 maneiras de subir na cadeia-alimentar editorial", "Crítico-literário: perdoando esse invejoso", "Aprendendo a puxar saco, um guia completo de como bajular: do editor ao leitor", "Meditações para não enlouquecer seu agente literário", "Agente literário- você também é humano!", "Diplomacia Literária- como não perder a sua", "O Autor e os Cuidados na Hora do Contrato- Atingindo o Ponto G, bom para a editora, melhor para você!".) A autora foi ampliando sua lista de contatos, observou o mercado, as tendências, recolheu conselhos de livreiros, ameaçou conhecidos para que lessem seus rascunhos e opinassem sinceramente sobre eles, enfim, muniu-se de lições e pareceres valiosos e seguiu em frente, para a próxima conexão.


Segunda Conexão: Utilizando-se de alguns daqueles contatos, a autora publicou contos em periódicos brasileiros como o "Gazeta de Fundão", do ES, e "O Diário de Coxixola", da PB e foi, aos poucos, tornando seu nome conhecido. O blog passou a ser mais visitado.


Destino Final, ou A Grande Viajada: Sem convite de editoras, a autora lança seu livro, bancando os exemplares, pela editora Lumus. A partir daí, livreiros, jornalistas, e todos os principais formadores de opinião passam a receber exemplares do livro, que viram bem-sucedidos pesos de papel, arrimos de portas e suportes para copos e garrafas. Entretanto, numa noite de chuva, um desses entediados destinatários decide abrir o livro empurrado de presente [3] por "aquela louca lá na porta da rádio", apaixona-se pela história, fala sobre ela a um editor bambambã, que fecha um contrato milionário com a autora. Atualmente ela discute com Steven Spielberg os direitos da obra para um filme a ser protagonizado por George Clooney. A negociação está empacada porque a autora quer incluir uma cláusula para formar, ela mesma, par romântico com o galã. [4]

Notas de rodapé: [1] Correspondente popular brasileiro: "assobiar e chupar cana", que, num sentido literário, não teria sentido nenhum se pensarmos bem... [2]Um novo modelo alemão, muito chato e com sotaque infernal, que insiste defender a receita do apfelstrudel original, repetindo cansativamente que os austríacos roubaram a receita de um de seus antepassados alemães e registraram em Viena os direitos autorais do famigerado pastel de massa folhada. "Um absurrrrrda!". [3] A biblioteca da cidade de Tróia abriga extensa bibliografia sobre como lidar com esse tipo de oferenda. [4] A agente literária da autora está sob prescrição de calmantes fortíssimos enquanto durarem as negociações.

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segunda-feira, 30 de março de 2009

In Extremis





Gostava da cor do sangue em dias de cinza, do vermelho denso espremendo o sal por entre as pedras do soalho escuro. Fitou a esposa morta, nua e pálida, o frio azul no olhar de boneca tomando o ar com névoas e cristais. Crepúsculo de vozes no escorrer da manhã chamaram pelos últimos fregueses de uma feira-livre, que se decompunha. Odor forte de peixe, talvez o mar também cheirasse assim... Trovejantes e grossos os pés desabaram na chuva, golpeando sem pejo a boa terra das ruas. Na janela diante da qual se ajoelhara em silente contemplação, estalavam gotas de água, que ele sequer ouvia. As mãos apertaram ainda mais o punhal, e toda a natureza observada sucumbiu de encontro ao vidro.
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Fabuleux Exupéry

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"Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda e diz: 'Era só um conto de fadas...' E a gente sorri de si mesma. Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." (Antoine de Saint-Exupéry)
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

versículo do tédio: ou, por que escrevo.


Desculpem! mas o tédio é tanto,
que só compartilhado
me incomoda menos.

Por isso preciso ser escritora:
para aborrecer aos outros
como a mim mesma.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A História de Todos Nós



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Assisti a um documentário no The History Channel (vou a ele como fonte de inspiração e sempre me pego apaixonada pela história da humanidade e do cosmos). Nesse dia o assunto era a invenção do Universo e mostrava um pontinho flutuando no meio da escuridão e posteriormente explodindo no famigerado evento Big Bang. Vi-me então num filosófico questionamento sobre "o que havia no interior do pontinho?", "e ao seu redor?", "o que o pusera ali, pairando no.... como chamar aquilo?". Busquei as respostas em diversos sites, e a primeira coisa que eles me sugeriram foi tirar da cabeça a imagem de um pontinho flutuando no espaço.

A maioria dos físicos parece concordar que antes do Big Bang havia... Nada. Sequer o tempo existiria. A mim a resposta não convence. "Nada"? E o que seria esse nada? O Nada de quê? Aparentemente a coisa nunca será simples de explicar ( puxando inevitavelmente uma comparação com os intensos debates entre religiões e ciência concernentes ao espírito, à reencarnação, etc).

Parece que há diversas teorias que vão do vácuo ou do caos ao Big Bang, até a de que somos produtos de um universo maior, de trilhões de braços-bolhas, em um dos quais teria ocorrido a explosão originária de nossa galáxia. Evidentemente uma leiga como eu não compreendeu a possibilidade de nenhuma das teorias. Mas algo me chamou a atenção. No conceito de que um grande evento originou o universo a partir de uma só energia, substância química, ou seja lá o que for, é deduzível que tudo e todos viemos de um princípio comum. Um dia estivemos juntos dentro dessa "semente" originária. Espalhamo-nos pelo (s) universo (s) e, por que não arriscar, levamos conosco memórias desse nosso encontro inicial. Talvez por isso reconheçamos certas simpatias com pessoas e eventos. Talvez...

Se inclusive formos filhos de um Universo semelhante, onde já nos teríamos desenvolvido e posteriormente voltado a nos espalhar pela imensidão, isso também explicaria por que determinados seres carregam dons específicos, ou até o porquê da crença em outras vidas. Tudo talvez porque já tenhamos vivido em diferentes espaços, em outras galáxias-bolhas, ou em outras dimensões. Talvez...

Como se vê, esta história não seria menos permeada de indefinições e talvezes que nosso próprio papel enquanto personagens de uma montagem demasiado grande para nossas conjecturas, mas não deixa de ser romântica a idéia de que todos já ocupamos um mesmo lugar ao mesmo instante (aqui alguns chamariam de Deus). A ciência reconhece que, quando morremos, certos átomos ainda permanecem no planeta e conseqüentemente no universo indelével (a isto chamariam de vida após a morte).

Enfim, resgatarmos o contato com nossa condição-origem nos tornaria mais humildes e complacentes para com os demais (em termos religiosos corresponderia aos "todos somos iguais perante Deus", e "ama o próximo como a ti mesmo") e nos confortaria diante da brevidade da vida terrena, já que não existe um fim, mas um ciclo natural de existência em nível atômico, que permanece e se renova após a morte ("do pó, ao pó", o átomo retorna incessantemente ao universo).
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