quinta-feira, 18 de junho de 2009

Longe através do véu

*
(Santa audácia a minha, sujeitar minha meia dúzia de leitores a esta experiência, mas aí vai: este texto é um excerto de algo em que venho trabalhando- postarei em capítulos, para quem aguentar segui-lo. O título é provisório.)
*
*
Capítulo 1- Perto demais
*
Um dia fomos buscar meu tio para viver com a gente. Mamãe me explicou que ele precisava de nossa ajuda porque ficara deprimido... muito aflito... meio louco. Ao contar aos amigos da escola, começaram a comemorar. Um louco! Você vai ver um louco de verdade!, resmungou o invejoso do Diego. Nunca víramos um louco, e o imaginávamos caminhando sem roupas pelas ruas, falando sozinho, cantando e chorando sem parar. No fundo confesso que fiquei com medo do tio louco. Os olhos dele eram iguais ao espelho do banheiro depois do banho quente, e as mãos, eu lembro, tinham dedos longos de palitos, dobrando e arranhando o vidro dos copos e dos pratos, equilibrando os talheres e deixando alguma comida cair numa garfada e outra. Bem, talvez nem tanto assim... hoje não tenho mais certeza de quais partes daquela semana realmente ocorreram. A sensação é de ter sonhado o que aconteceu comigo naqueles dias e agora estar aqui contando a você um sonho absurdo, com jeito de pesadelo e cara de real.

De qualquer forma, voltando à primeira noite com nosso visitante, sei que encostei uma cadeira na porta do quarto. Ele estava dormindo na sala, perto demais, e eu não sabia do que um louco era capaz, mas o rosto sem riso da mamãe indicou que não devia ser nada bom, nada bom mesmo. O único a dormir feliz aquela noite foi o Pepe, meu vira-latas, porque mamãe não apareceu para tirá-lo de cima da cama como fazia todas as vezes quando pensava que eu já estivesse dormido.
*

Nenhum comentário: