segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

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Alguns textos são unicamente registros tolos de uma mente desocupada e talvez devessem permanecer apenas na memória do computador. Mas, pensando melhor, talvez haja algo de bom nas tolices divididas... talvez não...

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Marcadores meramente ilustrativos: tolices de minha inocência que se perde; chuva e morte; rondas pela cidade selvagem

Ontem a tarde estive na Cobasi do Aeroporto comprando ração e, impossibilitada de sair debaixo da tempestade que inundou São Paulo, demorei-me além do normal passeando por seus corredores. Distraía-me com os peixes, os canários e as personatas, embora discorde de aprisioná-los, quando, mais a frente, encontrei a exposição de hamsters e camundongos, bichinhos pelos quais nutro certa aflição, são muito moles e pequeninos.

Um atendente ajeitava a caixa branca com furinhos redondos para ali colocar um desses animaizinhos que seria vendido. Imaginei, por um segundo apenas, a sorte que o premiara, de ser adotado por uma família e ter uma jaula (santa sorte!) só para ele. Em seguida ouvi o vendedor perguntar ao cliente se "aquilo" era para uma cobra, ao que este assentiu. Abriram a tampa aramada e se puseram a escolher a vítima. Só então me dei conta do que estava acontecendo. Um daqueles pobres camundongos, tão miúdos e assustados, agrupando-se aos outros em busca de calor e conforto, serviria de alimento para uma cobra. Restavam-lhe poucos instantes de vida. Como puderam com tamanha frialdade decidir qual deles seria morto? Como o atendente pôde preparar a caixa de transporte com tanta desenvoltura? De olhos marejados, não esperei pelo desfecho da história. Dei-lhe as costas, torcendo intimamente para que o ratinho conseguisse escapar, para que todos os pássaros, cobras e animais enjaulados fossem capazes de fugir. A Revolução dos Bichos! Não custa sonhar...

Eu sei, eu sei, o produto que comprei tem proteína animal e seria inocente de minha parte fingir não estar, eu também, condenando franguinhos ao abate. Mas me choquei ao reconhecer a naturalidade mórbida com que convivemos neste planeta, homens e homens, homens e bichos, deuses e mortais. A mesma a nos fazer crer na quase religiosa lógica do forte estar apto a decidir o destino do fraco, ao qual resta se espremer contra o vidro no meio da serragem para não ser notado e viver ao menos mais um dia. Como disse a grande escritora Marina Colasanti: "a gente se acostuma, mas não devia".
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2 comentários:

Laura Fuentes disse...

Continue com seus devaneios, querida. Você nos faz pensar. E quem sabe, um dia a gente aprende a não se acostumar?

SADY FOLCH disse...

Olga, depois de um longo suspiro, apenas quero registrar minha concordância com seus pensamentos.

Sady